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Change

  • Jul. 10th, 2009 at 12:48 PM

Quando chega o fim do ano lectivo, começo a encher o papelão ali do quarteirão. E a cada ano que passa, com mais facilidade me desapego da papelada que se foi acumulando. Tempos houve em que arquivava e guardava a maior parte das coisas, pensando que este ou aquele documento me seriam necessários no futuro. Já aprendi que, se um certo papel voltar a necessário, ele chegará novamente às minhas mãos, até porque o curso das coisas não é linear, mas antes circular.

E enquanto junto o lixo, vou ouvindo música.




myspace profile counters

Love your life

  • Jul. 10th, 2009 at 12:33 PM



Isto de eu colocar aqui as Indigo Girls é um bocadinho cliché (por outro lado, postar aqui a K.D. Lang não está nos meus planos).
E isso de lutar pelo "Love of our lives" mais cliché é ainda. Eu não gosto de lutar, sou toda a favor da Paz e do Amor.
Há músicas que compõem bem a banda sonora de road trips de Verão, mesmo que o carro continue estacionado à porta de casa.

The Universe unfolds

  • Jul. 7th, 2009 at 12:21 AM
Virginia
Já saíram as listas de colocação de professores e estou muito contente com o resultado que me diz respeito. Durante os próximos quatro anos, vou trabalhar a uns meros catorze quilómetros de casa, com o carro a deslizar por entre o verde dos pinhais que o outro mandou plantar, ficando afastada a medonha hipótese de ter fazer dezenas e dezenas de quilómetros diários ou quiçá de alugar um quarto numa vilória qualquer onde as mulheres têm buço e nem as cabras escapam, como disse a sorte_sula. :)
E mais: foi por apenas uma posição numérica que não fiquei na escola que tanto temia. O Universo foi muito generoso comigo.

Quando eu, no outro dia, dizia que tinha terminado um ciclo de dois anos, não fazia ideia que afinal termina antes um ciclo de cinco numa escola onde a adaptação inicial foi difícil, em que vivi momentos pessoais e profissionais muito conturbados, mas onde fiz um punhado de amigos. Aliás, hoje, a par da alegria de ter conseguido colocação, havia uma certa tristeza minha, por abandonar um lugar cujos cantos conheço muito bem, e dos meus colegas, que expressaram várias vezes a vontade de que eu continuasse ali. No fundo, criei ali alguma cumplicidade, um certo sentido de pertença e toda a gente gosta de pertencer a um lugar e a alguém.

Fiquei com o coração mais aconchegado quando até o director da escola me pediu, com uns afagos no ombro, para concorrer ao destacamento para lá continuar, elogiando, ao fim de cinco anos (já era tempo!) a árdua dedicação, o meu trabalho e a energia que ali gastei todos os dias. Sem falsa modéstia, não era para menos. Em quatro direcções de turma, só reprovei um aluno. E em três provas de aferição de Língua Portuguesa consegui sempre resultados acima dos nacionais e dos de escola. Não esquecendo uma série de procedimentos, materiais e estratégias que deixo no agrupamento, que não eram uso comum e de que agora já ninguém prescinde.

Hoje, a certa altura dei por mim a caminhar pelos corredores, a olhar para os espaços e a pensar nas tantas e tão diversas emoções que ali vivi, nas vezes que ri, sorri e chorei. Houve períodos de serenidade, de alegria pura, mas também de desgaste e de depressão. Isso fica para trás. Ao fim e ao cabo, a história de duas paixões sem retorno. Termina um ciclo em que talvez me tenha dado em demasia, tanto na escola como fora dela, sem receber grande coisa de volta, ou pelo menos o que esperava receber. Termina um ciclo em que não soube gerir e dirigir o esforço. Em que muitas vezes me senti em défice, achando sempre que se colocasse mais energia e entregando mais de mim própria resolveria o desequilíbrio. Actualmente, I know better. Este tempo não trouxe apenas os cabelos brancos.

Assim, estou muito inclinada a não concorrer ao destacamento para lá permanecer. Este é o momento de dar mais um passo em frente.
Aprendi há muitos anos que, para onde quer que vamos, levamo-nos sempre connosco. Mas, como me disse a minha amiga e psicóloga do agrupamento, que nunca perde o olho clínico, agora só me falta fazer o último pedacinho do luto. E sei exactamente como o fazer.

Não faço ideia do que me espera, mas sei que é nos momentos de maior desapego pelo passado que consigo encontrar algo melhor, nem que seja apenas dentro de mim.

Queixa das Almas Jovens Censuradas

  • Jul. 4th, 2009 at 1:25 PM
Virginia


Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.

Natália Correia

Jul. 3rd, 2009

  • 1:33 AM

A partir de hoje, na Índia, a homossexualidade já não é crime.

O exercício

  • Jul. 3rd, 2009 at 1:15 AM
garf
não só me deixa mais gira, mas também mais inteligente.
Quem o diz é a revista Scientific American.

Jul. 2nd, 2009

  • 11:42 PM

Terminou há poucos dias um ciclo que durou dois anos. Esses 730 dias constituíram um ciclo em si por causa dos alunos que me calharam, dos respectivos pais, dos desafios que se me apresentaram e das circunstâncias pessoais e emocionais extremas que vivi fora da escola.

A L. (já referi a miúda aqui uma ou outra vez) era, no início do 5.º ano, uma criança em depressão profunda, para resumir a confusão do quadro clínico que o psi lhe traçou. Não entrava na escola, gritava como se a fossem matar e apresentava todo um conjunto de características que foram um nítido obstáculo a que ela se dignasse a pôr os pés dentro da sala de aulas. Fiz por ela mais do que alguma vez fiz por algum aluno. Desde horas gastas em acompanhamento fora do meu horário lectivo, a conversas com os pais fora de horas a uma paciência de Job que fui buscar não sei onde, fiz muito mais do que o meu dever profissional ditava. Foram meses horrorosos que tenciono não voltar a repetir. O desgaste, o desmoronar anímico, a pressão e a depressão iam rebentando comigo e chegaram mesmo a ter danos colaterais destrutivos irreversíveis numa das peças da minha vida que me era mais querida na altura.

A criança terminou o 2.º ciclo e até o fez com notas razoavelmente boas. Uma coisa é certa: não se trata de falta de humildade, mas sem todo o esforço hercúleo que realizei que nada tem a ver com os Deveres do Professor descritos nos diplomas legais, porque se tratava de um caso de saúde pessoal e de saúde familiar (esforço esse que seria de facto nauseante agora aqui descrever, passados todos os relatórios que fiz sobre o assunto), a menina não estaria a caminho do 7.º ano.

Na semana passada, a mãe agradeceu-me en passant o esforço, mas disse que compreendia que, acima de tudo, o que eu fiz foi nada mais nada menos que uma experiência profissional para mim, de forma a eu saber lidar melhor com outro caso de "fobia à escola" quando ele surgir no futuro.
(É claro que com uma mãe destas não me admira nada que, à entrada do 7.º ano, ela esteja outra vez a espernear e a gritar junto ao portão da escola.)

O que fiz foi sempre porque a minha consciência pessoal o ditava. Porém, a minha consciência agora é outra.
É que, às vezes, a primeira pessoa a ser alvo da minha compaixão tem de ser a minha pessoa.
Dei mais do que devia e saí depauperada.
Sobrevivi a tudo, mas saí diferente, tão diferente...
Hoje sou outra professora e outra pessoa. Fiquei a tratar a dor e o sofrimento por tu.
Hoje sim, estou realmente capaz de viver qualquer outra coisa como apenas uma experiência e isso até é bom.




Em suma, o que aprendi à custa de muita pancada foi isto:

O manual mais pequeno do mundo sobre sobrevivência profissional,
ou como escapar ileso da guerra que os pais e alunos ressabiados andam a fazer aos professores


1. Não queira salvar o Mundo. O Mundo não tem salvação. Os humanos têm tratado tão mal a mãe natureza que ela vai agradecer quando os humanos derem cabo de si próprios.

2. Não entre na escola com a ideia peregrina de que a sua missão é salvar crianças e adolescentes. Há muitas crianças e jovens que não têm salvação. Quando chegam à escola já estão perdidas. Não se sinta culpado pela perdição dos outros. As culpas da perdição têm de ser distribuídas pelos políticos e pelos pais. Os primeiros porque não sabem governar o país; apenas sabem governar-se. Os segundos porque colocam o amor próprio e os interesses pessoais à frente dos interesses dos filhos. E vai daí, passam a vida a fazer asneiras.

3. Se vir uma criança com fome, compre-lhe uma sanduíche. Mas não tenha a pretensão de querer resolver o problema da pobreza.

4. Não fale nas aulas sobre sexo e política. Concentre-se nas suas matérias e lembre-se de que ensinar bem é a coisa que melhor pode fazer para ajudar as crianças e os jovens a serem bem sucedidos.

5. Não queira ser engraçado nas aulas nem queira passar por humorista. Lembre-se de que está a falar para 25 alunos que têm telemóveis com câmara fotográfica e gravadores de áudio e vídeo.

6. Não queira fazer-se passar por irmão mais velho, amigo, pai ou mãe dos alunos. Seja simplesmente professor: um profissional com elevada competência técnica e científica que é pago para ensinar. Quando se ensina bem, está-se a educar. A educação é uma camada que se sobrepõe à instrução. A sua tarefa principal é instruir. A educação vem por acréscimo. É um bónus.

7. Não fale sobre a vida privada com os alunos. Lembre-se de que você não é pai nem mãe deles. Tão pouco é irmão. Nem sequer é um amigo. Você é um profissional.

8. Não queira entrar na intimidade dos seus alunos. Ouça-os quando eles se dirigem a si para falar sobre os problemas pessoais, mas ouça apenas. Não diga nada. Se for caso disso, encaminhe-os para o psicólogo escolar. Se for assunto que possa ser tratado pela escola, mande-os falar com o director de turma.

9. Guarde a ternura para os seus filhos. Não caia na tentação de consolar as crianças e os jovens com carícias, ainda que inocentes. Seja cuidadoso. Há crianças e jovens que fazem uso da maldade pura.

10. Cuidado com as conversas com os pais. Trinque a língua antes de falar. Diga só o que for realmente necessário. Limite-se à descrição dos factos. Poupe nos adjectivos. Não faça juízos de valor. Nunca tenha a pretensão de pensar que os pais dos alunos são seus amigos. E nunca tome o partido dos pais contra os seus colegas. Lembre-se de que os pais passam, mas os seus colegas vão estar ao seu lado durante pelo menos 40 anos.

A monte

  • Jul. 2nd, 2009 at 3:19 PM
Virginia
Era para ter sido na segunda quinzena de Junho. Era para ter sido ontem. Há quem diga que hoje é que é. Porém, as listas de colocação de professores andam arredias da publicação. É verdade que a paciência é uma das melhores virtudes que se podem ter, mas a honra do compromisso também. Parece que os professores são os únicos do sistema obrigados a cumprir prazos, objectivos e quejandos.
Não é por nada de especial, mas ando com umas ânsias de saber onde é que vou trabalhar e viver nos próximos anos.

Construção

  • Jun. 27th, 2009 at 1:33 AM
Virginia


Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Chico Buarque

Descompressão e protector solar

  • Jun. 24th, 2009 at 9:01 PM
garf
Este é, sem dúvida, um dos meus sítios preferidos do mundo.
São Pedro Moel começa a mexer-se na indolência doce do Verão, com aquele encanto especial que poucas praias por aqui perto têm.
A ver se um dia destes me lembro de levar a máquina fotográfica para registar o azul magnífico do mar calmo que se tem visto por estes dias. Um azul límpido de tal forma que até se distinguem os bancos de areia junto à costa.




São Pedro Moel

Observação da noite

  • Jun. 22nd, 2009 at 12:11 AM

O Bruno Nogueira fica muito bem com um par de mamas.

Jun. 21st, 2009

  • 12:02 AM

Um dia morreu o guardião de um mosteiro Zen. Para descobrir quem seria a nova sentinela, o mestre convocou os discípulos e disse-lhes:
- O primeiro que conseguir resolver o problema que eu vou apresentar assumirá o posto.
Então numa mesa que estava no centro a sala colocou um vaso de porcelana muito raro, com uma rosa amarela de extraordinária beleza. E disse apenas:
- Aqui está o problema!
Todos ficaram olhando a cena: o vaso belíssimo, de valor inestimável, com a maravilhosa flor ao centro! O que representaria? O que fazer? Qual o enigma? De repente um dos discípulos saca da espada, olha para o mestre, dirigi-se para o centro da sala e... Zás! Com um só golpe destruiu tudo.
- Tu és o novo guardião. Não importa que o problema seja algo lindíssimo. Se for um problema, precisa de ser eliminado.

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José Eduardo Agualusa em Leiria

  • Jun. 20th, 2009 at 1:32 AM

na Livraria Arquivo, no dia 25 de Junho às 18h30.



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Jun. 12th, 2009

  • 3:20 PM
garf
De partida para o Norte, a iniciar os passeios/viagens de Verão e remodelar imagens e memórias de locais magníficos, deixo estas palavras de Ana Zannatti.
Vou de outra forma, com outras gentes, porque nem todos podem ser uma espécie de Melinda Gordon na vida.

Valeu a pena atravessar a floresta cheia de fantasmas, perigos e papões.

Lido aqui


Um dia hei-de chegar àquela idade a dizer exactamente o mesmo.

É mesmo o que falta

  • Jun. 11th, 2009 at 12:19 PM

"Era o que faltava" é, sem dúvida, uma das minhas frases preferidas do momento. É a marca da retórica arrogante.

Ontem, Sócrates voltou a usá-la: "Era o que faltava que o Governo ficasse diminuído na tomada de decisões importantes."

Pois, há muitas coisas que faltam e essa é uma delas. Faz mesmo muita falta o Governo ficar diminuído na tomada de decisão acerca do TGV.

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Waking up from the dream of “Me”

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